Você já parou para pensar por que algumas melodias, mesmo tendo mais de um século de idade, recusam-se a envelhecer? Se você ligar o rádio, assistir a um filme antigo, ou até mesmo ouvir a música de fundo em um parque de diversões, é provável que seja atingido por aquela famosa introdução no piano: “Ta-da-ta, ta-ta-ta… Ta-da-ta, ta-ta-ta”. Imediatamente, seu cérebro reconhece a melodia, seu pé começa a bater no chão no compasso da música e um sorriso involuntário surge. Essa obra, que se infiltrou no DNA cultural do mundo todo, chama-se “The Entertainer“.
Mas o que faz dessa peça, composta em 1902 pelo norte-americano Scott Joplin, um sucesso tão estrondoso e duradouro?
Imagine a música como uma engrenagem mecânica complexa, como o interior de um relógio suíço antigo. Por fora, vemos apenas os ponteiros se movendo com leveza e precisão (a melodia cativante). Por dentro, no entanto, há uma série de molas de tensão, rodas dentadas e contrapesos trabalhando de forma milimétrica. Durante muito tempo, muitas pessoas — inclusive músicos de formação acadêmica — consideraram o ragtime apenas como uma “música de salão” alegre e descompromissada. No entanto, quando você coloca uma lupa sobre as partituras de Scott Joplin, descobre que a sua música é, na verdade, uma verdadeira aula de composição clássica, contraponto, síncope e forma.
Neste post, vamos mergulhar fundo na história, na estrutura teórica e nos segredos de “The Entertainer”. Vamos entender a genialidade de Scott Joplin, o “Rei do Ragtime”, e como ele construiu essa ponte entre a música afro-americana e a tradição erudita europeia. E, para coroar nossa jornada, vou disponibilizar no final um guia completo e estruturado de arranjos dessa obra-prima para duos que todo mundo ama: Violino e Violão, Clarinete e Violão, e Bandolim e Violão.
Prepare seu instrumento, afine seus ouvidos e vamos juntos decifrar esse mistério musical.
O Que é o Ragtime? A Fusão de Dois Mundos
Para entender “The Entertainer”, precisamos primeiro entender o terreno onde ela nasceu: o ragtime.
A virada do século XX nos Estados Unidos testemunhou uma profunda transformação cultural. A sociedade deixava de ser majoritariamente agrária para se tornar intensamente urbana. No epicentro dessa metamorfose, surgiu um gênero instrumental de piano chamado ragtime. O nome vem da expressão em inglês “ragged time”, que pode ser traduzida livremente como “tempo rasgado” ou “tempo esfarrapado”. Mas não se engane com o nome: não há nada de bagunçado nessa música.
Pense no ragtime como um coquetel musical perfeito. De um lado, temos a rigidez estrutural da música clássica europeia, especificamente o formato das marchas de compositores como John Philip Sousa. Do outro lado, temos a vitalidade rítmica e a síncope das tradições afro-americanas, herdadas dos cantos de trabalho e das danças dos escravizados libertos.
A síncope é o coração do ragtime. Mas o que é, teoricamente, uma síncope? De acordo com os principais teóricos (e se você já estudou pelo livro de Teoria da Música do Bohumil Med, vai se lembrar disso), a síncope ocorre quando há um deslocamento do acento métrico natural do compasso. Em um compasso quaternário comum (4/4), os tempos forte e meio-forte caem no primeiro e no terceiro tempo. A síncope acontece quando prolongamos uma nota de um tempo fraco (ou parte fraca de um tempo) para um tempo forte (ou parte forte). Isso cria uma sensação de “puxão” ou de antecipação rítmica. A melodia parece estar sempre um passo à frente da batida principal, “dançando” sobre os compassos.
Essa tensão constante entre a melodia sincopada (tocada pela mão direita no piano) e o acompanhamento de marcha rigorosamente no tempo (tocado pela mão esquerda) é o que dá ao ragtime o seu “balanço” inconfundível.
Scott Joplin: O Arquiteto e o Rei do Ragtime
Scott Joplin não queria apenas fazer as pessoas dançarem; ele queria fazer as pessoas ouvirem e respeitarem a sua música.
Nascido entre 1867 e 1868 no nordeste do Texas, filho de uma família de trabalhadores ferroviários e ex-escravizados, Joplin demonstrou talento musical desde cedo. Sua educação formal começou quando um professor de música alemão, Julius Weiss, percebeu o talento do garoto e passou a lhe dar aulas gratuitas de piano, teoria musical e música clássica europeia. Essa base erudita foi fundamental.
Enquanto a maioria dos pianistas de bares e bordéis tocava ragtime de forma improvisada, muitas vezes acelerando o andamento para animar o público, Joplin fazia questão de anotar cada nota meticulosamente em uma partitura. Ele enxergava o ragtime não como um entretenimento passageiro, mas como a legítima música erudita norte-americana, digna de ser executada nas maiores salas de concerto do mundo, como se fosse uma sonata de Beethoven ou um noturno de Chopin.
Joplin era tão obcecado pelo rigor técnico que, em muitas de suas partituras, ele escrevia um aviso no topo da página: “It is never right to play ragtime fast” (Nunca é correto tocar ragtime rápido). Ele sabia que, se o andamento fosse muito rápido, a clareza da síncope e a complexidade harmônica se perderiam em uma confusão sonora. O ragtime precisava de “respiro”, de um andamento moderado para que a sua mágica matemática funcionasse.
Apesar de ter composto 44 peças originais de ragtime, um balé e duas óperas (incluindo a ambiciosa Treemonisha), foi com “The Maple Leaf Rag” (1899) e “The Entertainer” (1902) que ele garantiu seu lugar no panteão dos gigantes da música.
A Anatomia de “The Entertainer”: Uma Aula de Estrutura
Vamos colocar “The Entertainer” na nossa mesa de dissecação musical. Por que ela é tão brilhante?
A peça é estruturada na clássica forma de marcha do ragtime, que geralmente segue um padrão seccional. A estrutura de “The Entertainer” é: Introdução – A – A – B – B – A – C – C – D – D.
Cada letra representa uma seção distinta de 16 compassos. Essa repetição e contraste mantêm o ouvinte engajado, trazendo melodias familiares de volta e introduzindo novas ideias harmônicas logo em seguida.
A Introdução e o Tema “A”
A obra começa com uma introdução marcante de quatro compassos. Ela não é apenas uma “chamada” para a música; é uma progressão de semicolcheias que desce da região aguda do piano e aterrissa de forma triunfante na tonalidade principal da música: Dó Maior (C).
Logo em seguida, entra o Tema A, que é a melodia que todos conhecemos. Aqui, vamos pensar nos intervalos. Durante muito tempo, a melodia salta utilizando intervalos de terça e de sexta. Por exemplo, a famosa frase rítmica usa o salto de terças e sextas menores e maiores que se resolvem perfeitamente dentro da escala de Dó Maior. A genialidade de Joplin está no uso dos cromatismos (notas que não pertencem à escala original de Dó Maior, como o Ré sustenido ou Fá sustenido), que funcionam como “notas de passagem” ou apoios para criar um colorido voltado para o jazz que estava nascendo.
A Engrenagem da Mão Esquerda (O Padrão Stride)
Enquanto a mão direita salta sincopadamente, o que a mão esquerda está fazendo? Está fazendo o papel do bumbo e dos pratos de uma banda marcial.
A mão esquerda toca o famoso padrão Oom-Pah ou baixo alternado (stride). No primeiro tempo do compasso (o tempo forte), a mão esquerda toca uma nota grave (a tônica ou a quinta do acorde). No segundo tempo, ela salta para a região central do piano e toca o acorde completo. No terceiro tempo, toca o baixo novamente; no quarto, o acorde.
Essa base rítmica de marcha funciona como um pêndulo de relógio, um metrônomo humano que nunca vacila. É justamente essa estabilidade da mão esquerda que permite que a “malandragem” rítmica da mão direita brilhe. Sem uma fundação sólida, a síncope não tem sentido, pois a síncope só existe porque nosso cérebro está esperando o tempo forte que a mão esquerda marca!
A Modulação para a Subdominante (Seção C)
No ragtime, é quase uma regra de ouro que o “Trio” (a terceira grande seção da música, ou Seção C) module para uma nova tonalidade para renovar o interesse auditivo do público. Em “The Entertainer”, após retornarmos ao Tema A, a música modula para Fá Maior (F), que é a tonalidade da Subdominante de Dó Maior.
Nessa Seção C, a dinâmica muda. Como os teóricos costumam indicar, o ragtime usa muita dinâmica de “pergunta e resposta”. Uma frase pode começar de forma suave (piano) e ser respondida com energia e vivacidade (forte). Ao ler a partitura original de Joplin, notamos que esses detalhes de dinâmica são essenciais. Se tocarmos tudo no mesmo volume do início ao fim, a música perde sua tridimensionalidade e soa como o toque de uma caixa de música robotizada.
O Renascimento: A Ressurreição da Partitura Esquecida
É triste pensar que, após a morte de Scott Joplin em 1917, o ragtime perdeu força, sendo rapidamente substituído pelo Jazz e pelo Swing. A música de Joplin ficou acumulando poeira por décadas, conhecida apenas por um pequeno nicho de historiadores musicais.
A história só mudou na década de 1970, mais de meio século depois. Primeiro, o pianista com formação erudita Joshua Rifkin lançou um álbum chamado Scott Joplin: Piano Rags (1970) pela Nonesuch Records. Rifkin fez algo revolucionário: ele tocou o ragtime exatamente como estava escrito, sem firulas de improvisação de bar, com um andamento lento e acadêmico. O álbum foi um sucesso esmagador.
Pouco depois, o diretor de cinema George Roy Hill estava preparando o filme The Sting (conhecido no Brasil como Golpe de Mestre), lançado em 1973 e estrelado por Paul Newman e Robert Redford. Hill ouviu as gravações de Rifkin e decidiu que a música de Joplin, mesmo sendo de 1902 (e o filme se passando nos anos 1930), tinha o tom irônico, elegante e espirituoso perfeito para o filme.
O compositor Marvin Hamlisch foi contratado para adaptar as partituras de Joplin para uma pequena orquestra e para o piano solo, criando a trilha sonora. O resultado? “The Entertainer” alcançou o número 3 da parada da Billboard em 1974 e Marvin Hamlisch ganhou um Oscar pela trilha sonora. A obra de Joplin finalmente teve a consagração global que ele tanto sonhou em vida.
Como Ler e Adaptar Partituras para o Violão
Antes de entrarmos nos arranjos para duos, precisamos falar sobre a base harmônica da maioria desses grupos: o violão. Como já mencionei em outros posts sobre “Como ler partitura para violão“, quem escreve arranjos ou vai ler uma partitura de violão precisa estar atento a certas particularidades.
Ler partitura de violão pode parecer desafiador. A leitura das notas é feita na clave de sol, mas com um detalhe crucial: o violão é um instrumento transpositor de oitava. O som que escutamos no violão soa exatamente uma oitava abaixo do que está escrito na partitura. O Dó central do piano (Dó 3), que fica na primeira linha suplementar inferior da clave de sol, equivale ao Dó tocado na 5ª corda (casa 3) do violão.
Em nossos arranjos de ragtime, o papel do violão é imitar a mão esquerda do piano. Isso significa que o violonista terá a árdua (porém deliciosa) tarefa de fazer o padrão de marcha de baixos alternados. O polegar da mão direita (p) fará o “bumbo” tocando os baixos nos tempos 1 e 3, enquanto os dedos indicador, médio e anelar (i, m, a) tocarão os acordes nos tempos 2 e 4 imitando o som da “caixa clara” ou o acorde da mão esquerda do piano.
Adaptando a Obra-Prima: Arranjos de “The Entertainer” para Duos
Tocar “The Entertainer” no piano solo é um grande desafio técnico. Mas o que acontece quando queremos dividir essa responsabilidade entre dois instrumentistas?
Nos arranjos para duos de câmara, separamos as funções: o instrumento melódico (Violino, Clarinete ou Bandolim) assume o papel brilhante e sincopado da mão direita do piano, enquanto o Violão assume toda a estrutura de base, o groove e a harmonia da mão esquerda.
Para que a execução seja confortável nos instrumentos de corda e de sopro, muitas vezes transpomos a obra da tonalidade original (Dó Maior) para Sol Maior (G) ou Ré Maior (D). Nessas tonalidades, o violão possui cordas soltas (os bordões Mi, Lá e Ré) que facilitam a execução dos baixos alternados em andamentos mais vivos.
Adaptando a Obra-Prima: A Liberdade dos Arranjos para Violino, Clarinete e Bandolim
Você já reparou como uma mesma roupa pode ter um caimento completamente diferente dependendo de quem a veste? Na música, o princípio é exatamente o mesmo. Quando tiramos “The Entertainer” de sua “roupa” original — o piano solo pensado por Scott Joplin — e a vestimos em novas formações, como os duos de cordas ou sopros, não precisamos (e nem devemos) ficar engessados à partitura original.
A beleza de um arranjo não está em tentar imitar o piano nota por nota, mas sim em traduzir a intenção e o balanço do ragtime utilizando os “superpoderes” e as particularidades de cada instrumento. Concessões precisam ser feitas, e são justamente essas alterações criativas que tornam o seu arranjo diferente, único e vivo.
Ao se fazer um duo entre um instrumento solo e o violão, este assume o trabalho pesado da fundação, imitando a mão esquerda do piano com baixos precisos e acordes curtos. Mas o grande “pulo do gato” está no tratamento da melodia. Cada instrumento que fará o solo possui suas particularidades que podem e devem ser exploradas.
Arranjando para violão e violino
Veja o vídeo a seguir com um arranjo para violão e violino. Neste caso, o arranjador optou por usar o pizzicato na introdução como forma de diferenciação. A introdução não entra de forma tradicional com o arco longo. O arranjo explora o pizzicato — técnica em que o violinista belisca as cordas com os dedos, criando um som curto, percussivo e bem-humorado. Esse começo quase “malandro” fisga o ouvinte imediatamente, preparando o terreno para a entrada do arco nas síncopes brilhantes do Tema A. O violino não é um piano, e usar o pizzicato é uma forma inteligente de brincar com o ritmo.
Arranjando para Bandolim
E se passarmos essa mesma melodia para o bandolim? O bandolim compartilha a mesma afinação do violino, mas possui uma anatomia diferente: ele tem cordas duplas, ou seja, duas cordas de metal afinadas na mesma nota soando juntas a cada ataque da palheta. Isso lhe confere um timbre estalado e ressonante que nos remete imediatamente à malemolência do choro brasileiro. Porém, o som da corda beliscada morre rápido. Como resolver as notas longas que Joplin escreveu no piano? O arranjador aqui lança mão do trêmolo — um movimento extremamente rápido e contínuo da palheta para cima e para baixo. O trêmolo cria a ilusão de uma nota mágica, sustentada e expressiva, compensando a falta de sustentação natural do instrumento e dando um tempero emocional fortíssimo ao ragtime.
Arranjando para clarinete
Por fim, quando entregamos a síncope ao fôlego quente de um clarinete, o jogo muda de novo. O clarinete não tem cordas para beliscar, mas tem uma agilidade mecânica e um timbre amadeirado perfeitos para a exploração do trinado (a alternância veloz entre a nota principal e sua vizinha superior). Inserir trinados no final das frases ou na nota de resolução da síncope confere à melodia aquele sotaque atrevido das bandas de Dixieland de Nova Orleans. O clarinete permite “brincar” com a nota, arrastando-a com glissandos sutis que o piano, com suas teclas de afinação fixa, jamais conseguiria fazer.
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O Legado que Superou o Tempo
Adaptar “The Entertainer” para violino, bandolim ou clarinete acompanhados pelo violão é a prova definitiva de que a música bem construída é como uma argila de altíssima qualidade: ela aceita ser moldada.
A trajetória dessa melodia é, em si, um roteiro de cinema. Nascida da mente brilhante de um músico afro-americano marginalizado, que buscava provar o valor acadêmico de sua arte, a peça quase se perdeu nas sombras do tempo. Décadas depois, ressurgiu gloriosa, arrebatando o mundo e até mesmo prêmios Oscar nos anos 1970.
Tocar “The Entertainer” — seja com um beliscão de pizzicato, com a vibração intensa de um trêmolo ou com o sorriso de um trinado — é reverenciar a história da música. Scott Joplin nos deixou a arquitetura; a decoração, agora, é por nossa conta. Ele inseriu o ragtime no cânone da música para nunca mais sair, mostrando-nos que a boa matemática harmônica não tem prazo de validade.
Referências
The Entertainer (rag) – Wikipedia
The Entertainer: piano sheet music
Edição Inglês por Scott Joplin (Autor) Formato: Capa comum
Scott Joplin – The Entertainer, Songs & Compositions
Scott Joplin – SHSMO Historic Missourians
Scott Joplin | History | Research Starters | EBSCO Research




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